Criatividade - Termos

Leia os outros textos da série "Da Criatividade à Prática"[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4][parte 5]

Introdução


Que tipo de imagem vem à mente quando dizemos que alguém é criativo?

Para mim, vem a lembrança de alguém capaz de desenhar, pintar, contar histórias ou qualquer outra atividade artística ou então aquela pessoa que constantemente tira um comentário engraçado e inusitado não se sabe de onde e que sempre tem uma boa ideia quando os outros pedem sua ajuda para fazer algo diferente.

Bem, não está totalmente errado, mas é uma visão simplista do que pode significar criatividade.

Antes de pegarmos no pesado, vamos a alguns conceitos relacionados:
[também presentes no glossário]

Criar

Fazer surgir, fazer existir, originar, dar origem a, produzir, produzir, formar, introduzir, inventar, conceber, compor, autorar, iniciar.

Criativo

A capacidade de criar. Imaginativo, inovador, artístico. Caracterizado por ser original ou novo. Formado por um novo processo. Ter a capacidade de criar. Projetado para estimular a imaginação.

Criatividade

O processo de ser criativo. Uma série de ações que criam novas ideias, pensamentos e objetos físicos.

Ideia

Uma imagem de um objeto externo ou processo formado pela mente. Qualquer produto de atividade intelectual. O produto da atividade mental onde a mente concebe conscientemente um pensamento.

Imaginação

Nos limitaremos a definir imaginação como um processo pré criativo mas que não se limita aos moldes da realidade ou da factibilidade. São as ideias e pensamentos de forma mais puras e abstratas, mas que servem de combustível para a criatividade.

Não nos aprofundaremos no conceito de imaginação ou da sua diferença para a criatividade.

Pensemos assim:
Imaginação = Da cabeça para dentro.
Criatividade = Da cabeça para fora.

“Definir a imaginação não é tarefa fácil. Uma rápida consulta a sua origem etimológica nos remete ao verbo latino imaginari, que significa ‘formar quadro/desenho de algo’, ou simplesmente ‘representar’. No cotidiano, o termo imaginar é de uso amplo, podendo ter diferentes significados, dependendo dos contextos em que é utilizado. Pode significar um ideal, como na expressão ‘a profissão que só existe na minha imaginação’. Ou ainda, uma habilidade na solução de problemas, como na expressão ‘use sua imaginação e encontre um meio de sairmos daqui!’.”
[https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/19776]

Pensamento Criativo

Processos específicos de pensamento que melhoram a capacidade de ser criativo. Estar em um estado de espírito ótimo para gerar novas ideias. Pensar deliberadamente de forma a melhorar a probabilidade de novos pensamentos ocorrerem. Maximizar a capacidade do cérebro para pensar em novas ideias. A capacidade de pensar em ideias originais, diversas e elaboradas. Uma série de ações mentais que produzem mudanças e desenvolvimentos de pensamento. O processo de explorar múltiplos caminhos de ações ou pensamentos.
(Às vezes chamado de pensamento divergente, porque os padrões de pensamento e as áreas de crença são expandidos.)

Problema

Uma questão difícil de organizar ou em que é difícil decidir o melhor curso de ação.

Existem muitas definições diferentes ou palavras alternativas para a palavra "problema".

Para nossos propósitos, um problema é definido como uma situação onde existe uma proposta que deve ser resolvida, uma mudança que deve ser feita no processo atual. Seja para adaptar-se a uma nova situação, melhorar um produto ou trazê-lo de volta a um nível aceitável.

Oportunidade

Uma ocasião que oferece uma possibilidade ou uma chance. Uma combinação de circunstâncias favoráveis.

Probortunidade [...?]

Devido à dificuldade em determinar a diferença entre um problema e uma oportunidade e porque há muitas implicações negativas no uso da palavra "problema", a palavra probortunidade foi criada. Probortunity é a fusão da palavra "problema" e "oportunidade".

Uma probortunidade pode assumir qualquer forma: desafio, pergunta, mistério, preocupação, problema, enigma, dificuldade ou oportunidade.

Probortunidade é uma palavra inclusiva para descrever algo que você quer melhorar ou mudar para melhor.

[Isso foi traduzido de um site inglês. Nunca vi este termo em português e não sei se é realmente utilizado.

Mantive este termo porque como grande parte do material vem de textos estrangeiros, ele pode vir a aparecer em alguma oportunidade.

Acredito que aqui no Brasil inicialmente utiliza-se apenas a palavra problema. Posteriormente, se for o caso, é que a palavra oportunidade é utilizada. Se alguém souber melhor como essa questão funciona aqui, por favor me ajude aqui]

Solução de Problemas

A resolução de problemas é o processo pelo qual uma situação é analisada e soluções são formadas para resolver uma probortunidade (problema / oportunidade - veja acima) e quando os passos são tomados para remover ou reduzir o problema. O problema e a situação atual são analisados, as soluções potenciais são geradas e uma solução trabalhável é determinada e colocada no lugar. A resolução de problemas é o processo de análise de situações de incerteza para produzir melhorias reais ou mudanças na situação.

O processo de resolução de problemas compreende muitos elementos diferentes que podem ser usados em diferentes graus dependendo da probortunidade de ser resolvida. Os elementos típicos são:


  • Definição do problema [parte do entendimento do problema]
  • Análise da situação [parte do entendimento do problema]
  • Geração de ideias
  • Análise de ideias
  • Tomada de decisão
  • Determinar os próximos passos a tomar para introduzir a solução no local de trabalho


Diferentes problemas precisam de diferentes usos desses elementos e, muitas vezes, em diferentes quantidades e ordens. A estrutura do processo de resolução de problemas pode ser muito diferente para probortunidades diferentes. Por exemplo, você pode precisar ter muitas tentativas no elemento de definição de problema para ajudar a estabelecer o verdadeiro desafio se a oportunidade for inicialmente vaga.

[Note-se que a resolução de problemas não é o mesmo que a tomada de decisão.A tomada de decisão é um processo de resolução de problemas e só se preocupa em decidir entre diferentes ideias existentes. A resolução de problemas inclui a formação real dessas ideias. A resolução de problemas pode envolver vários graus de Análise de Problemas e elementos de geração de soluções em comparação com a parte decisória]



Na próxima semana nos aprofundaremos na definição de criatividade.

Até lá!

Outros textos da série "Da Criatividade à Prática"
[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4][parte 5]

fontes:
http://www.brainstorming.co.uk/tutorials/definitions.html [grande parte do texto, mas muita coisa foi removida ou alterada]
https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/19776


Criatividade - Prefácio

Olá a todos!


Estou iniciando uma série de posts relacionados à criatividade.

Partindo da definição popular, acadêmica e do que se trata na prática do profissional de criação a como ter ideias e viver criativamente. Serão conteúdos bem abrangentes e direcionados ao design, marketing, desenvolvimento de produtos e inovação.

A intenção dos textos é ajudar àqueles que se dizem nada criativos ou os que precisam se manter sempre criativos para trabalhar.

Teremos também algumas técnicas para desenvolver a criatividade no trabalho, ferramentas para geração de ideias e dicas para ser mais criativo no dia-a-dia.

À princípio estava planejando fazer um único texto. Grande, mas único. Mas a pesquisa cresceu tanto que agora serão vários textos. E textos também grandes.

Caso tenham dúvidas ou sugestões entrem em contato.
Este será um tema recorrente, portanto toda sugestão e ajuda serão bem-vindas!


Abraços a todos!


Textos da série "Da Criatividade à Prática"
Parte 1: Prefácio
Parte 2: Termos
Parte 3: Definição
Parte 4: Prática
Parte 5: Quando e Como

Incompetência generalizada

O que é a Incompetência Generalizada?


Recentemente tenho me incomodado muito com a má qualidade de praticamente tudo o que utilizamos e consumimos.

Mais especificamente da má qualidade que é resultado de falta de competência e preguiça de quem faz e de quem manda fazer.

Essa má qualidade/preguiça aparece em diferentes setores, esferas, níveis e lugares.

Na verdade em praticamente todos os lugares!

Minha esposa e eu, meio que de brincadeira, cunhamos então o termo "Incompetência Generalizada" para explicar porquê tudo [especialmente aqui no Brasil] é mal feito.

Mas o que seria algo de baixa qualidade?

Qualidade neste caso é algo que pode ser muito abrangente e incrivelmente variável. Vai de acordo com o contexto.

Pode ser algo que não atende ao que se propõe, um custo que não se justifique, um utilitário que estragou rápido demais ou até um acabamento que não é tão bom quanto deveria.


Colisão entre carro e bicicleta. Carro chinês amassado e bicicleta alemã inteira.
Apesar da piada, fiquem atentos, a China está melhorando seus produtos a cada dia

Vamos simplificar assim: Se tem motivos óbvios para reclamar, então provavelmente é de baixa qualidade.

[Futuramente vou abordar com mais detalhes o tema da qualidade...]



Naturalmente vocês estão pensando em coisas feitas ou administradas pelo poder público, certo?

E com razão, pois é lá que encontramos a maioria dos casos, assim como os mais graves.

Os exemplos vão desde casos brandos como a desnecessária má qualidade de um asfalto, até os mais graves como grandes obras, em que milhões de reais são gastos para depois simplesmente caírem sobre nossas cabeças. Literalmente [link, link]


Rua com buracos cobertos, mas com péssima qualidade.
Buracos tampados. Mas e a qualidade do serviço?

Mas fazer coisa mal feita não é exclusividade do 'governo'.

O que acontece é que na esfera privada, a incompetência tem graves consequências. na pública [pelo menos aqui no Brasil], não há consequência alguma, isso quando ela não é estimulada!

Por causa disso, é mais comum um erro desse tipo ser percebido e corrigido em uma empresa, que perde dinheiro com isso, enquanto na prefeitura de uma cidade nada muda, já que a renda está garantida [e muitas vezes a população não tem alternativas].

Alguns exemplos:

[Sempre que me deparar com algo do gênero, que valha a pena divulgar, adicionarei aqui.]

Obras públicas em geral

[projeto pobre, soluções meia boca, execução de baixíssima eficiência, desperdícios, atrasos, transtornos no trânsito e aos moradores próximos].

  1. Pavimentação das ruas e estradas no Brasil [não preciso dizer mais, certo?]
  2. Gerenciamento do trânsito: fluxo de veículos, caminhões, bicicletas e pedestres, transporte público, soluções como mudanças de direção de ruas, obras de "melhorias" de trânsito, sincronização de semáforos.
  3. Já reparou que nessas obras o que mais tem é uma pessoa trabalhando enquanto dois ou três ficam olhando?

Péssimo atendimento

[em bares, restaurantes, lojas, guichês de atendimento, profissionais autônomos, etc.]

Isso é muito comum pelo menos aqui em Belo Horizonte. Baseado na pouco experiência que tive em São Paulo, por exemplo, acredito que lá é diferente.

Atendentes de balcão ou loja que nem olham para você, e ficam com cara de enterro, ou tédio extremo enquanto te atendem. Isso quando atendem, e não estão só conversando entre si, ignorando qualquer cliente até então interessado em algo.

Produtos Burros

[produtos inteiros ou partes mal projetados, design inadequado, materiais inferiores ou inadequados]


Calculadora fazendo conta errada.
De que serve um produto desses?


Sobre o Design - Parte IV

Leia a série completa
[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4]


Como já tinha dito, agora eu quero polemizar…

Calma gente, vamos devagar.

Guardem seus tomates para o fim do texto [sem pedras, por favor].

Leiam tudo, depois a gente brinca de tiro ao Sérgio…


Design de Sobrancelhas? Design de bolo?


[Aviso que esta é uma teoria minha, baseada na minha vivência e em alguma leitura, portanto não precisa levar muito a sério. Pesquisando na internet vi que alguns concordam com essa visão, mas futuramente vou procurar referências em autores acadêmicos]

Uma das coisas que separa o DESIGNER de outros FAZEDORES DE COISAS [que casualmente podemos chamar de dezáiners, desingner ou outras variações] é a clara distinção entre projeto e execução.

Lembre-se que, apesar de não se limitar a isso, o termo “design” está intimamente ligado ao conceito de projeto.

É claro que existem exceções para todos os lados, mas a grande maioria dos casos segue este princípio.

Por exemplo:
É percebido um problema resolvível pelo designer. Este cria um projeto levando em conta as diversas causas, as menores consequências, cada detalhe normalmente ignorado e outras inúmeras variáveis envolvidas.

Somente então, com o projeto bem estruturado, passa para a execução, que pode inclusive ser feita por outro profissional.

Quando vemos termos como design de bolo [ou cake design, se preferir], voltamos à primeira questão levantada nesta série de artigos ##, a limitada visão da atuação e das capacidades do designer.

Acredito que aplicações como essa sejam aplicações muito restritas/simplistas para serem chamadas de design.

A ideia de que o “designer” vai só fazer um bolo bonito, pouco importando todo o contexto em que o problema-bolo se apresenta e todas suas possíveis soluções.

Alguém encomendou um bolo de tal forma, com tal tamanho, cores e detalhes. O designer se limita a fazê-lo. Não há uma uma distinção entre as fases de projeto e de execução.



Isso impede que um Designer bom de serviço faça um projeto para um bolo?
Claro que não!
Isso continua sendo design?
Talvez...
E porque com ele é design e com a fazedora de bolos não?
Bem… aí é que a coisa complica…

Posso até ter uma resposta para isso, mas este artigo já está grande demais.


Não duvido que existam profissionais como maquiadores [make design?] que graças a conhecimentos em diversas áreas como estética, teoria das cores e anatomia levam em consideração inúmeras variáveis para desenhar a sobrancelha ideal para cada cliente, mas não é o que vemos comumente por aí.

A discussão se este profissional pode ser chamado de designer seria muito válida, mas nosso foco aqui é outro. Vamos deixar para outro dia, se quiserem ;)

Mas já sabem da minha opinião…

...

Esses designers, na prática, no dia-a-dia, são simplesmente pessoas que retiram fios não desejados das sobrancelhas alheias, para no final simplesmente fazer algo mais bonito, bem feito ou realçar a forma já existente.

Por mais que de fato o façam muito habilmente na maioria dos casos, não existe mudança, não existe complexidade nem projeto. Só execução.

E o mesmo vale para bolo, unha, cabelo, maquiagem [está percebendo uma tendência aqui?], e outras especialidades que nem nunca ouvi falar.

Isso não se limita apenas a profissionais da estética ou da cozinha. No design gráfico temos um exemplo similar: O diagramador.

O diagramador pode ser um designer?
Pode
O que ele faz no dia-a-dia?
Adequa determinado conteúdo [texto e imagens] a um formato [jornais e revistas], seguindo uma série de regras pré-estabelecidas.
E isso por si só é design?
Não.

Alguns podem dizer que posso estar parecendo injusto.

Vamos então pensar em como seria o processo completo de um projeto de design de unhas…

Uma cliente chega, querendo pintar as unhas. Mais do que isso, ela quer fazer algo diferente dessa vez.

A nail designer então faz algumas perguntas e sugere um desenho. A cliente topa e partem então para a execução.

Findada a pintura, podemos perguntar à profissional:

  • Porque ela fez aquele desenho?
  • Porque escolheu essas cores?
  • Porque fez determinado acabamento?
  • E aquele detalhe da unha diferente?


Se as respostas forem: porque a cliente quis, gosta ou está super in, me parece que não estaremos diante de uma designer…

No máximo uma hábil desenhista de unhas.

Isso porque ainda não pegamos pesado nas perguntas:

  • Quais mensagens você passou em seu trabalho?
  • Você sequer cogitou a ideia de que uma unha bem feita não fosse a coisa mais adequada para as necessidades da cliente?
  • O que você poderia ter feito de diferente para a cliente?




Percebem?


Pessoalmente acredito que isso possa ser design caso esteja inserido em um contexto maior. Como a criação de um personagem, figurino, ou até a aparência de uma pessoa [visagismo], por exemplo.

Isso proíbe alguém a se especializar tanto que possa ser de fato chamado de designer de unha?

Alguém especializado em fazer somente o mesmo tipo de coisa, com o mesmo estilo, pode ser chamado de designer???

Tá, agora deu nó, né?




E o sobrinho?



Há quem diga que a existência dos famosos “sobrinhos” [filho da vizinha, e outras variáveis. Alguém razoavelmente jovem e próximo, geralmente mais íntimo de computadores e que sabe mexer nos programas] e dos chamados micreiros [um profissional que sabe mexer nos programas] é a causa de todos os importunos.

Eu sei que já os incluí em uma lista anterior ###, e pode parecer contraditório, mas não acho que a existência deles em si seja a causa dos problemas.

Acredito que a existência desse grupo profissional é [em parte] válida porque existe mercado para todos.

Agora, se formos falar da proliferação e dominação do mercado por parte desse pessoal, aí sim podemos ter problemas.

[Sei que estou exagerando quando digo ‘dominação do mercado’, talvez o mais certo seria ‘generosa fatia de mercado’ ou coisa assim :P ]

É importante perceber que isso é consequência da falta de cultura visual e do conhecimento das reais capacidades de designers capacitados.

Novamente caímos no problema que surge quando o empresário desconhece o que é um trabalho de qualidade e/ou se acostuma com um nível menor nas entregas dos ditos “profissionais” e passa a acreditar que esta é a norma.

Este exemplo nos revela outro ponto: Nem todo problema necessita de um designer bom [e caro] para resolvê-lo.

Não podemos proibir um micro-empresário com pouco capital de investir em design. Mesmo que não seja trabalho tão bem elaborado quanto poderia ser.


Como sempre digo:
Todo cliente tem o profissional que merece, que necessita, ou que pode pagar.


1- Todo cliente tem o profissional que merece:


Como já foi dito, existem clientes que não investem em design por acreditar que é um custo alto e desnecessário. Que apesar de saber das vantagens, incluindo as comerciais, não acredita ou não tem coragem de investir.


Esse é o cara que pode, sabe do que estamos falando, mas não quer.


2- Todo cliente tem o profissional que pode pagar:


Nem todo cliente tem fundos suficiente para investir em um profissional caro e que sem dúvidas resolveria seus problemas.


Isso é plenamente aceitável e não deve ser empecilho para investir em um mais barato, que resolva os problemas parcial ou momentaneamente.


O dono de uma barraquinha de cachorro quente provavelmente nunca vai conseguir pagar um escritório renomado, mas sim ao vizinho dele que “mexe com essas coisas”.


3- Todo cliente tem o profissional que necessita:


No exemplo anterior, suponhamos que o senhor cachorro-quente por acaso conseguisse verba suficiente para pagar o dito escritório renomado de design para fazer a marca, placa e cardápio da barraquinha.


Ficaria lindo, pode acreditar.


Pagaria o investimento?


:/


Quais vantagens haveria em uma lojinha do centro da cidade contratar o melhor designer do Brasil ao invés do Zé das Couves que fez um cursinho de uma semana em algum software?


Faria diferença no resultado final da peça? Sim, sem dúvida.


Essa diferença traria muito mais retorno financeiro e justificaria o investimento?


Provavelmente não…


Não se não viesse acompanhada de investimentos em outras áreas, mas deixo essa discussão para outro post [de novo…]


Leia a série completa
[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4]

Sobre o Design - Parte III

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[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4]

Problemas do design



Se perguntar a opinião de algum estudante de design [qualquer tipo], ele responderá que o design é lindo, que deveria ser matéria obrigatória em todas as escolas, que faz tudo ficar melhor e é a solução de todos os problemas da humanidade.

Mas infelizmente a gente vive em um mundo real, e nem tudo na vida são flores…

Nós, profissionais treinados, nos deparamos todos os dias com aplicações pouco eficientes, desnecessárias, forçadas, erradas, inapropriadas, excessivamente custosas, de baixo retorno, mal direcionadas [público errado], mal executadas [má qualidade], mal elaborada [conceitos e soluções fracos] e mal aplicadas [soluções ‘prontas’ aplicadas em outros projetos].

Na minha opinião, muitos casos em que o design não é bem sucedido são consequência da realidade em que se encontram. São muitas vezes reflexo da maneira como os designers recebem os problemas, da forma com que são direcionados às soluções e das condições próprias que têm para desenvolver seu trabalho.

Isso tudo porque de maneira geral, o design, e por consequência o profissional de design, são pouco valorizados.


Na prática – e digo baseado basicamente na minha experiência profissional e na experiência de profissionais próximos – o design é encarado como estética; arte final; execução ou simplesmente “pôr no papel a ideia de quem está contratando” [e exatamente da maneira que foi imaginada].

Em suma ele é tratado como uma ferramenta operacional para setores já melhor estabelecidos em uma empresa [como engenharia,  publicidade e marketing], e subordinada a estes.

Acredito que esta desvalorização, se deve, em grande parte por causa alguns pontos*:
[Nesta lista provavelmente estarei puxando sardinha mais para o design GRÁFICO, mas acredito que possa servir para outros também]

  1. A facilidade com que as chamadas tarefas mecânicas [trabalhos pouco exigentes, mas que fazem parte da rotina dos profissionais de design] e os trabalhos rasos e pouco adequados podem ser feitos por qualquer pessoa com um mínimo de instrução. Basta ter um computador com os devidos softwares e um pouco de paciência para aprender;
  2. Esta facilidade possibilita a entrada de profissionais não qualificados no meio. Esses profissionais se limitam a realizar somente as tarefas simplórias, em um nível raso, e nada além. Essa limitação difundida cria uma noção errônea de que este é o nível de trabalho normalmente realizado por todos os designers, inclusive pelos mais gabaritados;
  3. Falta de compreensão da diferença entre o trabalho de design e áreas análogas, como a publicidade, arquitetura ou engenharia. Se para o cliente há uma má delimitação entre as áreas, ele não saberá qual o profissional mais adequado para determinado projeto, e por ignorância acaba recorrendo aos mais tradicionais;
  4. A diferença de valores assusta os mal avisados. Um bom design não é caro, já que muitas vezes se paga. Mas um design mal feito, independente de quem o faz [e várias agências famosas reduzem a qualidade do serviço para baixar o preço] é normalmente mais barato, e isso sempre atrai clientes;
  5. A falsa ideia de que Design é para grandes empresas ou para gente rica. Acredito que este conceito seja uma combinação do ponto anterior [o custo] com a imagem de design ser uma coisa sempre arrojada, que não combina com a linguagem popular. Gente, põe na cabeça que um bom design é o que ele for preciso ser. Arrojado ou popular, grande ou pequeno, colorido com bolinhas brancas, amarelo, azul ou até uma tela em branco.
  6. Por trazer vantagens muitas vezes imateriais, indiretas, difusas e que permeiam diferentes áreas da empresa, há uma grande dificuldade de medir o retorno financeiro de um bom design para comprovar que ele é investimento, e não apenas custo;
  7. Mais ainda, porque o dono do projeto não percebe a diferença entre o trabalho bem feito e o trabalho mal feito. Por hora pouco importa o motivo. Pode ser por falta de conhecimento de bons projetos ou porque está habituado com profissionais não qualificados [ponto 2, logo acima]. O importante é que ele não percebe a diferença entre alternativas boas e ruins.
* Ajude a aumentar esta lista! Além destes, quais outros pontos merecem destaque?

Um bom design é o que ele for preciso ser.

Temos assim um sistema que se retroalimenta. Uma verdadeira bola de neve:
Os contratantes precisam do trabalho de um profissional da área. Os profissionais [seja por limitações de custo ou por incapacidade] se limitam a fazer o básico em trabalhos simplórios. Por não perceber a diferença de qualidade entre serviços de alta qualidade com os de baixa qualidade, o executivo acredita que aquilo é tudo o que se pode [ou que se precisa] fazer. Ao contratar novos profissionais, irá procurar aqueles capazes de continuar fazendo mais do mesmo, com a mesma qualidade. Este novo profissional, mesmo os devidamente formados e capazes, mais uma vez se mantém no básico, não desenvolvem novas capacidades nem exploram novas possibilidades. Se limitam a fazer o básico, qualquer coisa que sirva, que para quem os contratou está satisfatoriamente bom.

A este ciclo podemos ainda adicionar pequenas variações, como o contratante receber um trabalho de qualidade, mas como não percebeu retorno financeiro, da próxima vez irá investir menos. Pode também não haver um retorno financeiro por culpa de algum erro do projeto [afinal design não é uma matéria exata]. Existem casos em que o contratante não tem dinheiro para investir no início de seu negócio, procura um profissional mais barato e fica satisfeito com a qualidade do trabalho, e não procura melhorar futuramente. Temos ainda a presença de designers que são apenas bons em vender, mas não em executar o trabalho…


As variáveis são inúmeras.



Este processo é sim um grande problema, possivelmente o maior deles, mas com certo esforço pode ser quebrado.


Acredito que para mudar este cenário, devemos trabalhar em cima do último ponto da lista anterior e focar em quem contrata e em quem recebe os produtos.

Neste sentido falta o que chamamos de educação visual. As pessoas não têm discernimento entre projetos bons e ruins. E é em cima disso que precisamos trabalhar, divulgando nosso trabalho, mostrando bons exemplos, explicando o que e porque foi feito, comparando antes e depois, etc.

Ao educarmos ambos clientes e consumidores, estes passarão a exigir melhores entregas por parte de seus profissionais de design.

Consumidores exigentes, não se contentam com qualquer produto. Eles querem algo adequado às suas necessidades. Necessidades estéticas e funcionais. A era de ter que se adaptar aos seus produtos já não existe mais.

Este público demanda por projetos bem elaborados desde sua concepção até a execução. Eles querem produtos belos, ergonômicos e que funcionem melhor do que os anteriores. Querem entender tudo o que uma embalagem tem que dizer. Querem poder entrar em um site e encontrar informações relevantes para si de maneira fácil. Querem entrar em uma loja e sentir facilidade de circular, encontrar o que quer de maneira natural.

Empresas espertas devem responder a isso.

Ao procurar profissionais de design mais capazes, o executivo ganha a possibilidade de elevar o nível de qualidade de seus produtos, o que por si só já é bom. Destaca-se no mercado.


Mas ao compreender as capacidades e limitações do design, exigir melhores entregas, acreditar em seus profissionais, ser ousado e dar espaço para a criação ele passa a receber o máximo que o design tem para lhe oferecer.

Um trabalho bem elaborado e executado. Um produto que agrada aos usuários tanto em estética quanto em função. A qualidade, a facilidade, a novidade atraem, e o público retribui o investimento fazendo uso de seus serviços/produtos.


Esta atitude elevará em pelo menos um ponto o nível da discussão.

Provavelmente assim iniciaremos a divisão entre os trabalhos de qualidade e os “quebra galhos”.




No próximo texto quero criar polêmica ;]
Até semana que vem


Abraços!

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[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4]

Sobre o Design. Parte II

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[parte 1][parte 2][parte 3][parte 4]

O que é o design na prática


Design é um termo já conhecido, mas que, como ferramenta empresarial, ainda não é devidamente compreendido nem respeitado, sendo frequentemente confundido com estética, desenho, decoração, ou aos olhos de algum transeunte mal informado, apenas despesa.

Mesmo havendo casos em que não deve ser tratado como uma prioridade, seja por ser de fato pouco eficiente ou mesmo desnecessário, a aplicação adequada do design, independente de qual seja, causa efeitos positivos, podendo chegar a ser até mesmo parte importante no sucesso de um produto ou empresa.


O design é um recurso único que objetiva solucionar problemas específicos ao combinar como nenhuma outra ferramenta empresarial técnica, criatividade e estética, ao mesmo tempo em que se mantém próxima do usuário, compreendendo suas necessidades e preferências.

Cabe aos designers projetar objetos funcionalmente adequados, com aplicação dos conhecimentos técnicos e da ergonomia. Entretanto, esses objetos também devem ter qualidades estéticas e simbólicas, para que sejam atraentes ao consumidor. O designer deve adequar a predominância de elementos racionais e emocionais a cada caso, de acordo com as necessidades específicas de cada projeto.” Camilo Belchior, Iphone: Objeto de desejo

Apesar da complexidade intrínseca à função, no dia-a-dia, o design é  mais procurado como uma ferramenta para dar forma às necessidades do cliente. E é assim que muitas vezes o projeto é abordado.

A solução necessária para projetos de design pode ocupar uma ou mais das áreas que citei no primeiro artigo: os meios físicos [objetos ou espaços tridimensionais], imagéticos [imagens] e das ideias [ideias, conceitos, métodos, soluções, etc], sendo muito comum que seja uma mistura, em diferentes graus, das três.

Um produto, uma embalagem, um ambiente, uma marca, um site, peça de comunicação, livro ou qualquer outro tipo de solução que o cliente necessite. Praticamente todas combinam meios físicos, imagéticos e ideias.

Metodologia


Para todas as áreas de atuação do design e seus diferentes tipos de projeto, a parte metodológica é, a grosso modo, sempre a mesma:

  1. Identificação de problema;
  2. pesquisa;
  3. geração de alternativas;
  4. seleção;
  5. execução.

Salvo algumas exceções, toda solução de design vai passar por estas etapas, e nesta mesma ordem.

Uma boa metodologia é uma sucessão de divergência e convergência. Existem casos em que alguma adaptação será necessária, mas a ideia continua a mesma.

Na divergência são geradas múltiplas alternativas, na convergência, busca-se a escolha de uma única solução.

Pessoalmente acredito que a chave para tudo está na divergência, e que a convergência não é nada mais do que utilizar a divergência de forma específica, de maneira que ao fim do processo termine-se com uma única e segura alternativa.

O ideal é que cada elemento [pelo menos os mais importantes em um projeto] passem por esse processo.


Vamos ao exemplo:

Para criar uma luminária, um designer pode iniciar desenhando seu formato geral. Para chegar a um resultado satisfatório, ele faz então cinquenta alternativas completamente diferentes umas das outras, e escolhe uma que mais de adequa as necessidades do projeto.

Formato razoavelmente definido, abre-se novamente um pequeno leque para elaborar melhor o formato. São desenhados então mais cinquenta alternativas muito próximas umas das outras, todas baseadas no desenho escolhido na etapa anterior.

Escolhido o formato definitivo, cria mais cinquenta alternativas para a base, depois mais cinquenta para a boquilha, outras tantas para o tamanho, cor, interruptor…..


Vocês entenderam a ideia, certo?

Eu fiquei em cinquenta alternativas, mas esse número é beeeem elástico. Alguns fatores ajudam a definir esta quantidade, como  prazo, recursos, as possibilidades ou outras circunstâncias do projeto, mas via de regra, quanto mais opções forem geradas, melhor será a qualidade do produto final.

Voltando um pouco para a realidade das pessoas comuns, o que muitas vezes acontece é que uma ou outra etapa pode ser engolida na correria do dia-a-dia. Isso absolutamente significa que ela não tenha existido.

Mesmo sendo apenas a primeira opção foi desenhada, antes de sequer de por no papel, o bom designer já tinha pensado em outras dez.


E qual o significado disso tudo?


Vamos pegar um exemplo no DESIGN GRÁFICO [só porque é mais fácil para mim].

Segundo Kopp [Kopp, Rudinei, Design gráfico Cambiante], a atividade do design gráfico, materialmente, une: tipografia, fotografia, ilustração, arte-final, superfícies de impressão ou fixação da informação, tratamento de imagens, processos industriais de impressão gráfica, entre outros.

Sob o aspecto projetual e de concepção visual das peças [produtos do design gráfico], o designer deve ter em mente: o público ao qual se dirige, possibilidades financeiras, limitações de tempo para execução do material, tecnologia disponível, objetivos da empresa/marca/instituição contratante, identidade visual, qualificação profissional do pessoal envolvido, padrões de qualidade exigidos, que são agregados ao material gráfico.” Rudinei Kopp, Design gráfico Cambiante.

Ou seja. Ao sentir a necessidade de fazer um catálogo, o cliente contrata um designer gráfico.

Este, por sua vez, inicia o processo recolhendo toda a informação necessária, depois confirma se o que ele precisa realmente é um catálogo, procura referências anteriores [da mesma empresa/produto], cria um perfil para o público alvo e então parte para a conceituação e geração de alternativas.

Esta é a etapa criativa. É exatamente o que eu descrevi logo ali em cima.

Nesta etapa é que normalmente acontece a aprovação do cliente. É criado um modelo ou um protótipo com todos os elementos que já foram definidos, e é simulada uma situação de uso, de forma que fique fácil para o cliente visualizar e entender o que foi feito.

Depois de definidos e aprovados todos os componentes e subcomponentes de uma peça. Parte-se para a execução. A parte braçal do negócio.

Aqui a gente faz o projeto acontecer. O que acontece aqui varia muito de área para área, mas consiste em incluir algum conteúdo ao modelo [web design, editorial, comunicação, etc], especificar medidas [produtos, ambientes, impressos…], e produzir [fazer um molde, iniciar a montagem, imprimir, iniciar a reforma de uma sala, implementar o código, etc].


Normalmente, grande parte da execução é realizada por terceiros, mas é importante o acompanhamento de um profissional envolvido no projeto durante a execução para prevenir e/ou corrigir eventuais problemas o mais rápido possível.


Finalmente o projeto pode ser entregue. O processo é longo e varia muito de projeto para projeto, mas em geral segue este escopo. Mas é graças a isso que um projeto feito por bons profissionais geralmente são muito bem recebidos, tanto pelos consumidores quanto pelos clientes.



Semana que vem iremos discutir alguns problemas que os designers enfrentam

Até lá!


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Sobre o Design - Parte I


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Hoje em dia, muito se fala sobre o design.

Design é importante, design não é importante, isso é bem “design”, design moderno, design ergonômico, design isso, design aquilo….

Mas na verdade, em meus contatos com clientes, percebo que a maioria não entende a abrangência, efetividade e o retorno que o design proporciona.

Como o design é visto


Para o típico cliente, o design [principalmente o gráfico, não tenho certeza de como é com os outros] se resume a saber colocar no computador, e depois imprimir, as informações necessárias. E para piorar, alguns desses clientes sequer acreditam na capacidade dos profissionais, que assim são tratados como um mero intermediário entre o contratante, que dita o que e como deve ser feito, e o resultado final.

De forma geral acredito que isso também aconteça com outros tipos de ‘design’ por aí, pelo menos alguns deles, em diferentes graus ou situações..

Para os leigos, a atuação dos profissionais se limitam ao operacional. Um designer gráfico só desenha, não pensa em branding ou estratégia de comunicação, um web designer escreve html e não lida com a experiência do usuário, ou ainda um designer de ambientes que faz decoração, ou no máximo um projeto paisagístico, mas nunca é chamado para lidar com o fluxo de pessoas em um ambiente fabril.

Um indício disso é que todos nós já estamos cansados de ser confundidos com profissionais de informática.

Quem nunca recebeu pedidos para configurar o windows ou word de um cliente?

Em outras palavras, para estes clientes, designer é um cara que sabe mexer no computador. E não muito mais que isso.

Apesar de ainda ser verdadeira, esta imagem está mudando. Muito lentamente...

Mas espero que continue mudando.

Dentre os responsáveis pela mudança estão aqueles que acreditam, dão liberdade e investem no design. Muitos deles já sabem dos seus benefícios, outros estão experimentando e colhendo seus frutos. Comprovando por si as vantagens.


Este resultado positivo muitas vezes dissemina o “vírus do design”, que contamina os demais profissionais envolvidos, que presenciaram o trabalho e comprovaram por si suas qualidades e profissionalismo. Contamina as empresas concorrentes, que não podem ficar para trás e também precisam investir. Contamina também o próprio consumidor, que está mudando seu conceito de qualidade, agora que recebe um produto com maior valor agregado em termos tanto estéticos quanto funcionais, carregado de…


...adivinha…


Design!